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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Carta a um jovem arqueólogo

Carlos Azevedo *



Recorro à memória, para tentar reconstruir àquela minha ida ao sítio arqueológico Furna do Caboclo, em Soledade-PB.



Comecemos pelo ano da pesquisa: 1957. Ainda eu não tinha fundado o NEPA – Núcleo de Estudos e Pesquisas Arqueológicas (1961).



Baseado em informações de um fazendeiro de Soledade, de que havia cemitérios indígenas na área; parti de trem para Soledade.



Tive todo apoio do proprietário rural – cedeu-me trabalhadores que fizeram a “arqueologia da pá e da picareta”.



Escavamos o local de enterramento. Sem nenhuma técnica. Sem noção de como retirar todo material arqueológico, mas quem, nos anos 50, no Nordeste, teria condição de fazer uma escavação arqueológica tecnicamente correta!?



Encontramos muitos ossos, ossada humana, bastante conservada pelo clima seco do Cariri paraibano. Exumamos fragmentos de caixa craniana, tíbias, fêmur, clavículas e dentes bem conservados de adultos e crianças (dente-de-leite) e até cabelos, de cor avermelhada. Esse foi o material antropológico coletado. Acho que era um cemitério enorme, pela amostra coletada.



Notava-se pela situação da “tumba”, que ela fora “profanada”. Não por arqueólogos, mas por vândalos.



Pelo formato circular da cova, deduzi que o enterramento era primário.



A cultura material associada era bastante pobre: contas de colar (verde), fragmentos de cerâmica grosseira, com desenhos geométricos – tupi-guarani? Devia ter sido de uma igaçaba danificada.



Havia terra preta no local (estrutura de fogueira?). E alguns dos ossos estavam carbonizados – teria sido um ritual de canibalismo?



Na época, Thomas Bruno, eu não tinha nenhum arcaboço teórico para essa leitura. Hoje, tento fazer uma outra leitura dos fatos. Mas há muita distância entre o sujeito e os objetos encontrados. Faz 50 anos, exatamente 50 anos que estive na Furna do Caboclo – pense no tempo! Assim, Thomas, faço arqueologia do tempo perdido, isto é, escavo todos os fatos passados lá, na minha memória. Memória de um cientista de 67 anos. Quando estive naquela furna, tinha apenas 17 anos, era da idade de Erik Brito, o mais jovem pesquisador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.



Essa é a minha leitura daqueles fatos; é como se eu lesse um livro que não existe mais.



Abraço.




*Carlos Azevedo é Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Arqueologia Histórica e Industrial - GEPAHI e sócio da SPA.


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