Este é o blog da Sociedade Paraibana de Arqueologia. Contato: sparqueologia@gmail.com

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O topônimo do Rio Paraíba

Vanderley de Brito*

Com 380km de curso e uma bacia de 18.000Km2, toda em território paraibano, o Paraíba é o rio mais extenso do Estado. Nasce com o nome de Rio do Meio, segue por 10km até receber o da Serra e o Sucuru, quando o conjunto passa a chamar Paraíba, e vai engrossando ao receber afluentes como o Taperoá, Bodocongó, Surrão, Bacamarte, Paraibinha, Gurinhém, Curimataú, Gargaú, Una, Tibiri, e Sanhauá, além de outros sem grande expressão.

Por volta de 1506, quando Tristão da Cunha descobriu o rio Paraíba, este tomou o nome de São Domingos. Pois era praxe entre os ibéricos nomear os lugares de acordo com o santo do dia, por isso a data em que este expedicionário da Coroa descobriu a foz do Paraíba deve ter sido 04 de agosto, por ser este dia em que se comemora o referido santo. Contudo, o nome dado pelos portugueses ao Rio não foi suficientemente forte para sobrepor o topônimo indígena tradicional e em poucos anos já figurava em documentos o termo “Paraíba” para definir o Rio.

O topônimo Paraíba, segundo Antônio Victoriano Freire, procede diretamente de apara= árvore de madeira resistente e iba= abundância, e faria referência ao pau-d’arco. No entanto, a tradução não procede uma vez que o termo, cuja pronúncia correta é “guaparayba”, quer dizer “mangue vermelho de beira-mar”. O termo até poderia ser coerente se fizesse referência ao pau-brasil, que havia abundantemente ao longo do baixo curso deste rio, de madeira vermelha e largamente explorado nesta região por comerciantes portugueses e corsários franceses com ajuda dos nativos. Entretanto, os mangues são compostos por árvores dos gêneros Rhizophora, Laguncularia e Avicennia, Nem o pau-brasil e muito menos o pau-d’arco são árvores de áreas justamarítimas sujeitas às marés.
Rio Mamanguape

Ainda sob a perspectiva vegetal, alguns outros querem que o nome do rio esteja relacionado à espécie Marupá (Simarouba amara), árvore de madeira branca e leve que é empregada para caixotaria e forros, pois esta árvore da família das simarubáceas também é conhecida pelos vocábulos tupi: paraíba, praíba, papariúba, marupaúba. Contudo, o topônimo “Paraíba”, dado ao grande rio que desemboca no Cabedelo, só faria sentido dizer respeito a esta espécie arbórea caso a mesma se apresentasse em abundância ao longo de seu baixo curso. O que parece não ocorrer, pois é muito presente na Amazônia, aparecendo também nas regiões da Bahia, Alagoas e Pernambuco em menor escala. Na Paraíba esta árvore não se apresenta de forma significativa e, sendo de madeira fraca e susceptível aos cupins, não foi de importância comercial no período colonial a ponto de denominar um rio.

Excluída a possibilidade do topônimo “Paraíba” fazer referência a uma espécie vegetal, também há estudiosos, como Coriolano de Medeiros e Horácio de Almeida, que defendem vir o termo de pará= mar ou rio e iba= braço. Assim, o termo “braço de mar” estaria de acordo com o fato do Paraíba ser um rio que se comunica com o mar, tão largo que chega a parecer um braço de mar.
Contudo, se o termo tivesse a intenção de dizer “braço de mar”, não seria então “paraíba”, mas “paragibe”. Pois o termo “pará” tanto pode querer dizer “rio caudaloso” como “mar”. Já o termo “ibá” quer dizer enseada, angra ou recôncavo e não “braço de mar”. Portanto, esta junção léxica traduziria redundância, porque uma baía, tecnicamente, é mar. Então, bastava a palavra “ibá”.

Devemos salientar também que a foz do Paraíba não está numa enseada ou baía, mas sim num cabedelo, e também não é demais lembrar que entre as diversas variantes em que se registra o termo Paraíba nos documentos antigos, encontramos: Parajba, Paraíba e Parajua no século XVI; e Parayba, Paraíba, Paraiva, Parayva, Paraíua, Parahiba, Praíba e Praiva, no século XVII. Portanto, não há nenhum que possa se associar por aproximação ao termo paragibe.

Pois bem, no início do século XVII o governador holandês da Capitania, Elias Herckmans, que conviveu com indígenas, atribuiu a significação de “Paraíba”, do tupi, como “rio mau”. Da mesma opinião foram também Teodoro Sampaio e Leon Clerot. Todos querendo sugerir que o rio Paraíba seria de má navegação. Contudo, considerar o rio Paraíba imprestável para a navegação está fora de propósito, uma vez que este rio no período colonial era perfeitamente navegável até a região de Pilar. Especialmente para as pirogas dos nativos que, sem dúvidas, foram quem atribuíram o topônimo.

A idéia de que Paraíba (de pará= rio e aíba= ruim) quisesse se referir a inviabilidade de transportes fluviais por este rio deve sua interpretação a Elias Herckman que, como todo europeu, via na Capitania apenas as possibilidades econômicas. Natural que tenha entendido que “rio mau ou ruim” aludia alguma dificuldade ou empecilho no processo de fiscalizar ou escoar a produção de açúcar.

Se formos analisar o termo “aíba” do vocábulo tupi, veremos que não está necessariamente associado à condição de desfavorável ou inexeqüível, mas sim a condição de cruel ou tirano. Podemos tomar de exemplo o termo “caraíba”, de cari-aíba, denominação que os nativos davam aos brancos invasores de suas terras e que quer dizer “estrangeiro mau”. Certamente os indígenas não estavam dizendo que os europeus eram maus no sentido de acesso ou negócios, mas sim porque matavam e preavam índios, queimavam suas aldeias e tomavam suas terras. Outro exemplo é o termo “araíba”, que quer dizer “mau tempo” ou “tempo ruim”. O termo não se refere a tempo chuvoso, que seria impróprio para sair caçar, pescar ou plantar, pois tempo chuvoso eles denominavam “amãbytu”. Portanto o termo “araíba” se refere aos períodos de doenças, pragas e castigos. Ou tempo do mau.

Particularmente, concordo que o termo “Paraíba” vem de “pará= rio caudaloso e aíba= mau”, mas, ao invés de rio intrafegável, creio que o termo desta junção queira se referir às características do rio denominado Paraíba por ser de água em abundância (caudaloso) e de um histórico intempestivo e traiçoeiro (mau). Ou seja, o termo “mau” se refere as cheias extraordinárias que no decurso da história fizeram do rio Paraíba um implacável destruidor.
Datas como 1641, 1698, 1718, 1728, 1731 o imprevisível Paraíba saiu destruindo engenhos, casas, roçados e canaviais, matando gados e pessoas. Na cheia de 1789, o rio Paraíba esteve tão forte e impiedoso que trouxe arrolando na torrente uma cruz de madeira, até hoje ninguém sabe de onde veio o cruzeiro, e deixou-a encalhada nas ruínas de antigo povoado ribeirinho próximo ao engenho

Espírito Santo, aonde depois viria nascer a cidade de Cruz do Espírito Santo.
Depois vieram as terríveis inundações de 1919, a de 1924 que levou o engenho Saboeira e a ponte da Batalha, e a avassaladora torrente de 1947. Estas cheias corriam impetuosamente carregando tudo que tinha pela frente, elevando as águas do Rio em até 9 metros. As cheias mais recentes foram as de 1985 e 2004, no entanto menos vorazes devido o Açude de Boqueirão que, depois de construído, passou a reter grande parte da força do Rio.

Colérico, o Paraíba também deve ter sido ao longo de sua pré-história, destruindo roçados, aldeias e matando gente e talvez era visto e cultuado entre os indígenas como um deus impiedoso, não é despropósito supor que inúmeros rituais de apaziguamento certamente lhe foram dedicados no curso da pré-história. Portanto, não seria nenhuma novidade para os indígenas a malíssima índole deste implacável rio.

Em julho de 2001 estive na nascente deste monstro, numa caminhada de 8km subindo a serra de Jabitacá, por entre o denso juremal que reveste a encosta das margens do Rio porque, o leito, repleto de gigantes blocos graníticos rolados e árvores altaneiras, impossibilitava caminhar ali.

A nascente fica num alcantilado entre as serras de Jabitacá e Bulandeira, um desnível em meio à floreta nativa, pouco menos de 200m do dorso onde as serras se fundem. O nascedouro, escondido entre cipós e lianas entrelaçadas, se configura num profundo cacimbão. Denuncia a presença humana naquele inóspito uma rústica escada de madeira colocada para oferecer acesso ao lençol freático, amarelecido e salobro, no fundo do poço. O terrível Paraíba, ali em sua nascente, tão tímido e impotente, nem parece aquele imprevisível e avassalador monstro raivoso que o homem primitivo muito propriamente denominou de “Rio Mau”.

0 comentários:

Leia por assuntos

Boletim da SPA eventos Arqueologia evento Pedra do Ingá IHGP História Patrimônio Vandalismo Lançamento Paleontologia Rev. Tarairiú Campina Grande Centro Histórico João Pessoa Revista Eletrônica Arte IHGC Juvandi Tarairiú Carlos Azevedo Homenagem Livro Museu Arqueologia Histórica Artigo Cariri Diário da Borborema Arquivo Espeleologia História da Paraíba Inscrições Rupestres MHN UEPB Nivalson Miranda Pesquisas Vanderley Arte Rupestre Encontro da SPA Evolução Exposição Fósseis Itacoatiaras LABAP Patrimônio Histórico Soledade São João do Cariri Thomas Bruno Achado Arqueológico E-book Falecimento IPHAEP IPHAN Missões Projetos Queimadas Raul Córdula SBE Semana de Humanidades Serra de Bodopitá UEPB UFCG Vale dos Dinossauros Acervo Antropologia Arqueologia Experimental Barra de Santana Brejo Cabaceiras Capitania da Paraíba Cartilha Clerot Cordel Descaso Escavação Estudos Evolutivos FCJA Forte Ingá Itatuba Lagoa Salgada Memórias Natal Niède Guidon Palestra Patrimônio Arqueológico Pesquisador Piauí Serra da Capivara Serras da Paraíba São João do Tigre UBE-PB USP Uruguai Walter Neves África ALANE ANPAP APA das Onças Amazônia Amélia Couto Antônio Mariano Apodi Araripe Areia Arqueologia Industrial Arqueologia Pública Aula de campo Aziz Ab'Saber Bacia do Prata Belo Monte Biografia Boqueirão Brasil CNPq Camalaú Caraúbas Carta circular Casino Eldorado Ceará Cemitério Comadre Florzinha Concurso Cozinhar Curimataú Curso Curta-metragem Datação Dennis Mota Descoberta Dom Pedro I Dossiê Educação Ambiental Educação Patrimonial Elpídio de Almeida Emancipação política Espaço Cultural Esponja Exumação Falésia do Cabo Branco Fazendas de gado Feira de Campina Grande Fonte Histórica Forte Velho Funai Gargaú Geografia Geologia Geopark Guerra dos Bárbaros Guilherme História Viva Hominídeo IHCG IHGRN IPHAN-RN Ipuarana Jesuítas Jornal da Ciência José Octávio Juandi Juciene Apolinário Laboratório Lagoa Pleistocênica Lagoa de Pedra Lajedo de Soledade Linduarte Noronha Litoral Luto MAC Mato Grosso Matéria de TV Memórias do Olhar Mostra Museu Itinerante Ocupação humana Olivedos PROPESQ Paleo Paraíba Pará Pe. Luiz Santiago Pedro Nunes Pernambuco Pilões Pleistoceno Pocinhos Ponto de Cultura Projeto Catálogo Pré-História Pré-História submersa Quilombola Reivindicação Reportagem Revista Rio Paraíba SBP SBPC Santa Luzia Sebo Cultural Seminário Semiárido Seridó Serra Branca Serra Velha Serra da Raposa Serra das Flechas Sertão Sessão Especial Sobrado Sumé São Mamede São Thomé do Sucurú Sócios TAAS Teleférico Terra Tome Ciência Técnicas Cartográficas UEPB Campus III Uol pelo Brasil Zonas arqueológicas caiabis mundurucu usina Índia Índios âmbar

Visitas desde SET 08

Translate

Estatísticas do google 2011

  © Arqueologia da Paraiba

Back to TOP