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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Antropologia visual no Andersen

Carlos Alberto Azevedo*



O Museu Alfredo Andersen em Curitiba (foto), realiza de dois em dois anos o Salão Nacional de Cerâmica Popular. Este salão tem “a finalidade de documentar a arte cerâmica como forma de expressão artística, e estimular os artistas ceramistas a utilização de sensibilidade e talento no processo criativo”.


A pré-seleção do salão é feita sempre através de fotografias das peças. Isso implica, naturalmente, na análise detalhada de cada foto-peça. Recorremos (nós, os jurados) à fotografia numa tentativa de obter uma visão geral e particular da amostra. À medida que selecionamos cada foto-peça fizemos uma análise acurada da mesma.


São centenas de fotos, de todo o país, retratando a cerâmica popular de várias regiões do Brasil. Além disso, existe o lado subjetivo de certas peças (foto-peça) que, muitas vezes refletem a expressão religiosa e a identidade étnica de cada ceramista. Sendo fotografias etnográficas, o antropólogo ou o folclorista, tem de fazer uma leitura correta das mesmas. Pois, conforme Roland Barthes (A Câmara Clara), “a fotografia é um objeto antropologicamente sutil”.


Os três jurados (um folclorista e dois antropólogos) atentaram para o valor significante – o que cada foto-peça tem em si de representatividade como objeto (artefato) puro. Levou-se, é claro, também, o valor significativo – o que a foto-peça simboliza para a cultura do ceramista. O tipo de seletividade estava implícito na própria amostra. Variando entre cerâmica artística propriamente dita e popular (decorativa e utilitária).


Notou-se a força da expressão religiosa, isto é, da religiosidade popular que se manifestou através da estilização dos vários São Francisco. Essa tendência foi registrada por mim na década de 1970 (ver São Francisco na Cerâmica Popular, revista Vozes, número 8), quando pesquisei a presença de São Francisco na cerâmica do Nordeste. Parece ser, ainda hoje, uma tendência muito comum entre os ceramistas – santeiros do Nordeste e do Sul do Brasil.


De fato, para nós antropólogos, foi uma experiência valiosa, essa análise feita através da fotografia. A leitura das fotos suscitou muitos questionamentos. Mas não se questionou, em nenhum momento, a aura da foto-peça – àquela aura de que tanto falava Walter Benjamin.


Nosso próximo encontro, no Museu Alfredo Andersen, será, desta vez, para se confrontar com a peça-viva (seleção final). Com certeza, cada peça falará por si mesma. Com seu colorido natural. Vivo e belo. Será isso a aura?


*Antropólogo, Coordenador do GEPAHI, Diretor da SPA.


Foto: http://curitiba.paises-america.com/museus-arte.htm

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