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terça-feira, 17 de março de 2009

Evolução da pintura rupestre na Amazônia acompanhou mudanças sociais milênios afora

Eduardo Geraque escreve para a “Folha de SP”:

Astecas, maias e incas. O legado artístico desses povos precolombianos é sempre descrito como exuberante e riquíssimo. Quando o foco é dirigido para os antigos moradores da Amazônia, porém, é difícil ir além da fabricação de cerâmicas.

Ou era, porque o estudo da arte rupestre na floresta, segundo pesquisas ainda inéditas da arqueóloga Edithe Pereira, do Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém (PA), pode mudar de forma contundente esse cenário arqueológico.


O sítio de Monte Alegre, no Pará, tem várias pinturas em rochas. As mais antigas, datadas de forma indireta, foram feitas provavelmente há 11.200 anos. Seria o início de uma escola amazônica de pintura?


Para a principal especialista em arte rupestre amazônica, o que se pode afirmar é que houve pelo menos dois períodos distintos em que essas pinturas foram feitas. As análises mais recentes de Pereira mostram que houve uma efervescência cultural em Monte Alegre em uma época bem mais recente, e não exclusivamente no início da ocupação da região.


"O período de 1000 a.C a 1000 d.C. se apresenta como um momento de mudança no tocante à organização na sociedade, na política, na economia, na demografia e na cultura material de Monte Alegre", disse a pesquisadora à Folha.

Todas essas mudanças aparecem incorporadas à atividade gráfica rupestre, afirma a arqueóloga. "A representação da figura humana é evidenciada na cultura material [cerâmicas], e na arte rupestre, principalmente a partir do primeiro milênio da nossa era", diz.

Os dados que os arqueólogos têm em mãos hoje permitem afirmar que pintores trabalharam na região de Monte Alegre por vários milênios. "Houve um período mais antigo, dominado por temas como a representação de animais e de formas geométricas (grafismos puros), e um período mais recente, no qual estilos artísticos da região do baixo Amazonas, seja na cerâmica ou na arte rupestre, predominam."

Essa configuração mais recente do legado dos antigos amazônidas emerge a partir de comparações estilísticas, presentes nas cerâmicas e nas pinturas, tanto de Monte Alegre como da Prainha, outro sítio arqueológico amazônico sob constantes análises científicas.

Nessas pinturas mais recentes, diz Pereira, o tema dominante é a figura humana, mas ele não é uma exclusividade. "Há algumas figuras de animais e grafismos puros [no período mais recente] que são similares nos dois suportes – rocha e cerâmica", diz a pesquisadora. Para o arqueólogo Eduardo Neves, da USP (Universidade de São Paulo), o problema é que "existe mesmo um ‘buracão’ cronológico entre mais ou menos 8.000 anos antes do presente e uns 3.000 anos".

Mesmo no caso das pinturas, diz Neves, a questão das datas pode ser relativizada. "Nunca houve uma datação das pinturas. O que foi feito, pela arqueóloga Anna Roosvelt [cientista americana], é uma datação de ‘pingos’ de tinta achados no solo, em Monte Alegre". Os métodos disponíveis hoje ainda não permitem datar muito bem as imagens sobre rochas.

Floresta sitiada

Apesar de ser recente o estudo da arte rupestre na Amazônia – o primeiro grande livro sobre o tema, escrito por Pereira, é de 2004 – algumas certezas começam a sedimentar, diz a pesquisadora do Goeldi.

"É possível afirmar que os tipos de pintura da Amazônia são diferentes das feitas no Nordeste", diz. A região da Serra da Capivara, no Estado do Piauí, é mundialmente famosa por suas pinturas rupestres. As pinturas paraenses e dos demais Estados da Amazônia brasileira, como as de Roraima e do Amapá, afirma Pereira, estão mais próximas de artes rupestres identificadas nos outros países amazônicos, como na Colômbia e na Venezuela.

Para discutir isso, pesquisadores que estudam arte rupestre em todas as regiões amazônicas vão se reunir entre os dias 29 junho e 3 de julho no Parque Nacional Serra da Capivara, no Global Rock Art (Congresso Internacional de Arte Rupestre). "Não é que não exista arte rupestre na Amazônia. Muitas vezes, os hiatos existem porque faltam pesquisas nesse tema. Na prática, essa área começou há alguns anos", diz Pereira.

Tanto na Amazônia quanto no Piauí, onde a antropóloga Niede Guidon luta para manter intacto os sítios arqueológicos, qualquer descoberta científica ajudará, também, a elucidar um outro dilema nem tão artístico assim: os primeiros passos da espécie humana nas Américas.

(Folha de SP, 15/3)


Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=62245
Imagem: capa do livro 'Arte rupestre na Amazônia - Pará (Edithe Pereira), disponível em: http://www.livrariahumanitas.com.br/produtos/mostraImagem.php?imagemNome=30d532ac50.jpg

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